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Home»Entretenimento»‘Por que vou te pagar se posso fazer com o ChatGPT?’: freelancers contam perrengues do mercado de trabalho com a IA
Entretenimento

‘Por que vou te pagar se posso fazer com o ChatGPT?’: freelancers contam perrengues do mercado de trabalho com a IA

março 14, 2026Nenhum comentário2 Visitas
Como a IA está impactando o trabalho de freelancers
A ideia de que “a inteligência artificial vai roubar o seu trabalho” nunca pareceu tão próxima da realidade.
Empregadores têm usado ferramentas como ChatGPT e Gemini para realizar tarefas antes delegadas a outros profissionais, como escrever, traduzir e criar imagens.
Mesmo quando não são diretamente substituídos, trabalhadores precisam lidar com uma nova realidade em que essas ferramentas estão cada vez mais presentes.
Um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), junto com o Instituto Nacional de Pesquisa da Polônia (NASK), divulgado em maio de 2025, mostrou que um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à transformação pela IA generativa.
Mariana Del Nero, Cássio Menezes e Maria Fernanda
Acervo pessoal
Os impactos dessas mudanças, segundo a ONU, são variados e vão desde ganho de produtividade até a perda de postos de trabalho.
Para saber mais sobre esse cenário, o g1 conversou com freelancers de diferentes áreas. Por estarem em contato direto com diversas demandas, eles têm sentido profundamente os efeitos dessas transformações. Confira os relatos.
Além disso, confira no final da reportagem dicas para se manter relevante no mercado de trabalho frente às IAs.
‘Minha cliente há 10 anos usou uma IA para fazer o meu trabalho’, diz produtora de conteúdo
Mariana Del Nero, criadora de conteúdo freelancer
Acervo pessoal
Mariana Del Nero, de 38 anos, é publicitária e trabalha há 15 anos como produtora de conteúdo, com foco em redação de textos para agências de publicidade.
Em 2024, ela perdeu um trabalho de uma cliente que atendia há mais de uma década para uma IA.
O “job” era escrever um convite para um evento corporativo de uma empresa.
Mariana conta que avisou que poderia fazer o texto cerca de meia hora depois que o pedido foi feito. Mas, em poucos minutos, a contratante enviou no grupo de WhatsApp — que incluía o cliente da agência e a própria Mariana — um texto pronto.
“Percebi na hora que tinham feito com IA”, afirma. “Foi aí que eu entendi que, para tarefas simples, as IAs já estavam me substituindo”.
Depois do episódio, ela diz que passou um período se sentindo perdida e refletindo sobre os próximos passos da carreira. A conclusão foi que resistir à tecnologia não seria uma opção.
“A solução foi aumentar meu leque de conhecimento dessas ferramentas e me posicionar como a pessoa que fica por trás da IA, usando a tecnologia a meu favor”, afirma. Desde então, passou a utilizar com mais frequência plataformas como o ChatGPT no dia a dia.
Segundo Mariana, o uso dessas ferramentas reduziu drasticamente o tempo de execução das tarefas.
“O que antes eu levava duas horas para fazer, hoje faço em 15 minutos, com a mesma qualidade”, diz.
Mas isso não significou aumento de rendimento. O problema, segundo ela, é que a demanda por trabalhos pontuais diminuiu, o que ela acredita estar diretamente ligado ao avanço da IA.
‘Cobrava de R$ 3 a R$ 4 mil; hoje cobro R$ 1,5 mil e acham caro’, diz designer
Cássio Menezes, designer gráfico
Acervo pessoal
“Por que você tá cobrando esse valor se eu posso ir no ChatGPT e fazer?”. Foi isso que Cássio Menezes, de 35 anos e designer gráfico há mais de uma década, ouviu de um cliente em outubro de 2025. Depois disso, o contratante desistiu do serviço.
Cássio estava cobrando R$ 1,6 mil para criar toda a identidade visual de uma marca — incluindo paleta de cores, cartão de visita e outros itens. Segundo ele, o valor já representava uma redução significativa: há cerca de três anos, ele cobrava em torno de R$ 3 mil pelo mesmo pacote.
“Com essa tecnologia, as pessoas acham que o nosso trabalho é fácil e desvalorizam. Pensam que é só colocar um prompt e pronto. Agora, mesmo com os valores reduzidos, ainda tem gente reclamando”, afirma.
Segundo Cássio, a presença da IA também alterou o perfil das vagas na área criativa. Para ele, empresas passaram a exigir que um único profissional acumule múltiplas funções.
“Todo dia eu procuro vagas no LinkedIn, e a maioria paga muito mal e pede várias habilidades ao mesmo tempo”, diz. “Querem alguém que faça tráfego pago, marketing, social media, tudo em uma única contratação — para pagar menos. A justificativa é que a IA faz isso de forma rápida e simplificada”, diz.
Nesse cenário, Cássio diz que sente “cada vez menos prazer em trabalhar e se profissionalizar na área”.
“Dá um desânimo. Parece que quanto mais investir na minha carreira, menos clientes eu vou ter, porque eles querem pagar cada vez menos”, afirma.
‘Maior parte do trabalho hoje é revisão de IA’, diz tradutora
Maria Fernanda, tradutora
Acervo pessoal
Maria Fernanda, de 34 anos, trabalha como tradutora freelancer há cinco anos.
Ela conta que desde o início de 2024 sentiu uma mudança grande nas ofertas de trabalho por causa do aumento do uso da IA pelos clientes, sejam pessoas físicas ou empresas.
“Hoje, a maior parte das ofertas de trabalho é para revisão de textos traduzidos pela IA”, diz.
Segundo ela, a remuneração por esse trabalho é menor do que a tradução completa de um texto, mas isso não impactou o seu faturamento, porque o tempo de trabalho de revisão é menor, o que possibilita que ela aceite mais trabalhos.
Maria acredita que essas mudanças foram maiores para tradutores que trabalham com materiais técnicos (legais e médicos, por exemplo) e publicitários, como ela. Isso porque, segundo ela, na área literária, a tradução humana do texto completo ainda predomina.
➡️Como se manter relevante frente às IAs
As ferramentas de IA estão movimentando o mercado de trabalho — e isso deve continuar acontecendo nos próximos anos.
Para se manter relevante nesse cenário, a dica é valorizar e investir nos aspectos criativos e exclusivos do trabalho, segundo a professora Luciana Morilas, especialista em trabalho da FEA-USP.
“A criatividade não é previsível por algoritmos, é algo da natureza humana. A máquina jamais vai ser criativa”, diz.
Além disso, Luciana destaca que é importante não “demonizar” a IA e aprender a implementá-la no dia a dia para não “ficar para trás” no mercado.
“Existem muitas ferramentas de IA que o profissional pode e deve usar a seu favor, seja para transcrever áudios, organizar cronogramas, entre outras atividades simples”, afirma.
Veja mais:
Levei 20 minutos para enganar ChatGPT e Gemini – e os fiz contar mentiras sobre mim
Por que o Moltbook, rede social das IAs, pode não ser a revolução que promete
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