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Home»Entretenimento»8 coisas ‘grátis’ na internet que pagamos sem saber
Entretenimento

8 coisas ‘grátis’ na internet que pagamos sem saber

março 24, 2026Nenhum comentário3 Visitas
BBC – Em troca do wifi público em aeroportos, hotéis e lanchonetes, fornecemos dados de navegação, localização e comportamento.
Getty Images
Vivemos na era da gratuidade. Redes sociais grátis, correio eletrônico grátis, buscadores grátis, mapas grátis, notícias grátis, inteligência artificial grátis.
Parece que o capitalismo, esse sistema que acusamos de cobiça com tanta frequência, passou a ser mais generoso.
Mas há um pequeno detalhe incômodo: nada neste mundo se produz por si próprio. Como recordava Karl Marx (1818-1883), todo valor requer investimento social de trabalho, energia e tempo.
Nenhum servidor funciona por altruísmo. Nenhum algoritmo trabalha por vocação social. Nenhum pacote é transportado por inspiração poética.
Se não pagamos por algo com dinheiro, estamos pagando de outra forma. A pergunta não é se pagamos, mas com o quê.
Aqui estão oito coisas que acreditamos serem gratuitas, mas que, na realidade, não são.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
1. Redes sociais: o preço da atenção
Publicar fotos, comentar, compartilhar memes, acompanhar debates políticos. Tudo parece gratuito.
Mas plataformas como a Meta Platforms não vivem do entusiasmo juvenil, mas sim da publicidade segmentada.
A socióloga Shoshana Zuboff explicou como o capitalismo de vigilância transforma nossos comportamentos em matéria-prima econômica. Nós não pagamos com cartão. Pagamos com tempo, dados, comportamento e padrões emocionais.
Cada “curtida” é uma informação. Cada pausa em frente a um vídeo é um sinal comercial. Nosso divertimento é um recurso, que pode ser explorado.
O mais interessante é que não sentimos que estamos pagando. Sentimos que as redes sociais nos entretêm, que nos dão um “prazer” gratuito.
Qualquer semelhança com o romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1894-1963), é mera coincidência.
BBC – Para as plataformas de redes sociais, cada “curtida” é uma informação.
Getty Images
2. O buscador que sabe tudo
A empresa Alphabet Inc., dona do Google, não nos cobra por fazer buscas na internet.
Pelo contrário, ela facilita a nossa vida, encontrando restaurantes, médicos, voos e respostas a questões existenciais.
Mas cada busca revela uma intenção. E a intenção é ouro.
O sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) nos ensinou que até as nossas eleições aparentemente livres são estruturadas por campos e capitais. E, aqui, as nossas buscas alimentam um campo econômico no qual a informação sobre desejos e necessidades tem valor monetário.
Nós não pagamos pela resposta, mas pagamos ao formular a pergunta.
3. Frete grátis (porque alguém está pagando)
O comércio eletrônico aperfeiçoou a arte do “frete grátis”. Mas o transporte envolve combustível, salários, infraestrutura e logística.
Como destacou o acadêmico David Harvey, o capitalismo reorganiza constantemente os custos para manter o acúmulo.
O custo não desaparece. Ele é integrado ao preço, compensado com volume ou se mantém sob condições trabalhistas milimetricamente ajustadas.
A gratuidade é uma redistribuição estratégica do custo, não a sua evaporação.
4. Aplicativos de entretenimento
Séries ilimitadas, vídeos infinitos, música a todo instante.
Às vezes, pagamos uma assinatura; em outras, nem isso. O modelo freemium (“free premium”, ou premium de graça) nos oferece um ingresso sem barreiras.
O filósofo Byung-Chul Han descreveu como a sociedade contemporânea transforma a sedução em forma de controle.
Quanto mais tempo passamos nesses aplicativos, mais dados geramos, mais afinado se torna o nosso perfil e mais rentável é a nossa presença. Nós nos integramos pela comodidade.
5. Notícias digitais
Muitos meios de comunicação oferecem acesso gratuito aos seus conteúdos. Seria uma forma de filantropia informativa? Não exatamente.
O financiamento provém da publicidade, dos cliques e do tráfego.
O sociólogo Jürgen Habermas (1929-2026) alertou que a esfera pública depende das condições materiais de comunicação. Quando a atenção se transforma em moeda, a informação também entra na lógica de mercado.
O leitor não paga com dinheiro, paga com atenção. E a atenção é monetizável.
6. WiFi público
Aeroportos, cafeterias e hotéis oferecem conexão gratuita. Basta aceitar certas condições que raramente lemos.
O filósofo Michel Foucault (1926-1984) demonstrou como o poder moderno opera por meio de dispositivos aparentemente neutros que organizam os comportamentos.
O acesso “grátis” também é um dispositivo. Em troca, fornecemos dados de navegação, localização e comportamento. O pagamento é a cessão silenciosa.
BBC – Oferecer chatbots de IA sem custo financeiro representa, para as empresas, um investimento de longo prazo.
Getty Images
7. Chatbots de inteligência artificial
As plataformas de inteligência artificial (IA) permitem consultas de todo tipo.
Resolver dúvidas, redigir textos, gerar ideias. O usuário sente que tem acesso a uma ferramenta avançada sem pagar por ela.
O sociólogo Antonio Gramsci (1898-1937) falou da hegemonia como forma de direção cultural que passa a ser normalizada.
A IA gratuita pode ser entendida desta forma. Ela parece um serviço, mas cada interação fortalece infraestruturas corporativas, modelos de negócios e acúmulo de capital cognitivo.
Aqui, a gratuidade corresponde a um investimento de longo prazo.
8. O presente mais sofisticado: a sensação de que não devemos nada
Talvez o ponto mais interessante seja que a gratuidade não redistribui apenas os custos. Ela transforma a experiência do intercâmbio.
O filósofo Louis Althusser (1918-1990) explicou que a ideologia não funciona apenas por discurso, mas por práticas cotidianas, que estruturam nossa percepção.
Quando não desembolsamos dinheiro, não sentimos perda. Quando não sentimos perda, não percebemos conflito. E, quando não percebemos conflito, o sistema parece neutro.
A gratuidade não elimina o intercâmbio, que continua acontecendo sem a nossa consciência. E isso traz consequências sociais profundas.
O paradoxo da generosidade
O capitalismo digital não funciona ocultando informações de forma grosseira, mas reformulando a percepção.
Se não observarmos o custo, parece que ele não existe. Se não o experimentarmos como sacrifício, parece que a relação não é desigual.
Nada disso implica uma conspiração, mas sim um modelo de negócio. O sistema não precisa que acreditemos na sua bondade, basta nos sentirmos cômodos.
Mas precisamos ter em mente que, na economia, não existem milagres. Quando algo parece grátis é porque o pagamento, simplesmente, mudou de lugar.
O mais interessante não é pagarmos com dados, tempo ou atenção. Mas sim que, como não pagamos com dinheiro, deixamos de sentir que estamos pagando.
Aqui reside o presente mais perfeito de todos: a ilusão, cuidadosamente projetada, de que alguém nos está dando algo, sem pedir nada em troca.
* Victor Hugo Pérez Gallo é professor assistente da Universidade de Zaragoza, na Espanha.
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons.
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